Os mitos

(Última edição: terça-feira, 20 de dezembro de 2005 às 23:18)

Os mitos


Público, 20 de Dezembro de 2005


Jesus não nasceu a 25 de Dezembro, não foi dado à luz numa gruta, não havia burro ou vaca a assistir, os magos não eram reis nem eram três, não houve pastores a adorá-lo, não fugiu para o Egipto. As histórias de Natal estão cheias de pormenores que têm apenas uma intencionalidade teológica. Apenas? Não fossem essas histórias e onde estaria a dimensão do maravilhoso no Natal?


Por António Marujo


No cristianismo, o ponto de partida está na encarnação do Verbo. Aqui, não é apenas o homem a procurar Deus, mas é Deus que vem em pessoa falar de si ao homem e mostrar-lhe o caminho por onde é possível atingi-lo.

(João Paulo II, Carta apostólica Tertio Millenio Adveniente, sobre o início do terceiro milénio)


Nenhuma das histórias é verdade? A vinda dos magos do oriente, a acção da estrela, a conversa dos magos com Herodes, que pôs em alvoroço a cidade de Jerusalém, a adoração dos magos, o prazo de dois anos entre a vinda dos magos e a matança dos inocentes, a ida de Jesus, Maria e José para o exílio no Egipto, onde permanecem dois anos, é uma narrativa midráchica, artificial.

O padre Joaquim Carreira das Neves, biblista, sintetizava deste modo, a 6 de Outubro deste ano, na sua última lição pública, o modo como a exegese bíblica contemporânea olha para as narrativas da infância de Jesus contidas nos evangelhos. Midráchica designa uma narrativa maravilhosa para referir um facto de fé.

Nessa intervenção, que será em breve publicada na revista Didaskalia, da Universidade Católica, Carreira das Neves acrescentava: É anti-racional que Herodes tenha mandado matar as crianças de Belém e arredores, precisamente dois anos depois do aparecimento dos magos. A ser verdade, e não obstante os crimes do rei, Flávio Josefo [historiador do século I, autor de Antiguidades  Judaicas] não deixaria de apresentar este crime como o maior de todos os crimes.

Não há que enganar: as narrativas da infância de Jesus apenas contidas nos Evangelhos de Mateus e Lucas, e mesmo assim com elementos contraditórios
entre ambas servem propósitos bem determinados: pretendem ser uma teologia ou catequese em que cada evangelista escolhe a melhor pedagogia e linguagem para o anúncio do mesmo salvador a destinatários diferentes, escreve frei Lopes Morgado (Entrai, Pastores, Entrai, catálogo da exposição de presépios de Dezembro de 2002, em Évora). Ou, na expressão de Carreira das Neves (Jesus Cristo História e Mistério, ed. Franciscana), esses relatos que datam dos anos 75 a 85 pretendem informar não sobre a história do nascimento e da infância de Jesus, mas sobre a modalidade do ser dessa criança. Porque surgiram então tais relatos? Muitos dos mitos ligados ao Natal devem-se às histórias dos evangelhos apócrifos (reunidos na Biblioteca de Nag Hammadi, que acaba de ser editada em Portugal pela Esquilo). Esses textos, dos séculos III e IV, que ajudam a entender o gnosticismo cristão daquela época, retratam um Jesus que faz milagres desde bebé, que se zanga facilmente ou, pelo contrário, é capaz de ajudar intensa e miraculosamente
fazendo brotar água, por exemplo.

Uma espécie de um ser humano que se quer mais divino que o divino. Os dois evangelistas da infância Mateus e Lucas traduzem a mentalidade cristã do final do primeiro século, como explica ainda Charles Perrot (Narrativas da
Infância de Jesus, ed. Difusora Bíblica). Mas o seu maravilhoso, escreve France Queré (Os Evangelhos Apócrifos, ed. Estampa), tem a intenção de mostrar que o nascimento de Jesus dá um corpo sensível à devoção, começa-se a amar a Deus como a uma pessoa. O cristianismo insere-se na história, porque Deus se
tornou humano. E Jesus, o Deus que se torna homem, é o libertador para os tempos novos, um novo Moisés.

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