Economia, emprego e factor cultural

(Zuletzt bearbeitet: segunda, 11. abril 2005, 23:46)
Adelino Torres, Professor  do ISEG
DN, 11 de Abril de 2005


Cultura. Se, de facto, a economia é importante, é duvidoso que, por si só, resolva os problemas da organização da sociedade contemporâ-nea. Os dilemas culturais colocados pela evolução vertiginosa da ciência, da tecnologia e das ideias oferecem desafios urgentes a que apenas pode responder uma sociedade educada

A propósito da crise fala-se muito de economia e de finanças e pouco desse outro pilar do desenvolvimento que é a "cultura", aqui tomada no sentido amplo do termo.

 Se, de facto, a economia é importante, é duvidoso que, por si só, resolva os problemas da organização da sociedade contemporânea. Os dilemas culturais colocados pela evolução vertiginosa da ciência, da tecnologia e das ideias oferecem desafios urgentes a que apenas pode responder uma sociedade educada.

 É por isso que um ensino exclusivamente orientado por uma óptica utilitarista estática, que não esteja, em particular, assente na investigação fundamental, revelar-se-á a prazo inoperante e mesmo factor de retrocesso se, como é previsível num sistema dinâmico, os mercados evoluírem, os objectivos mudarem e o tipo de empregabilidade se transformar radicalmente.

 Desde logo a educação não pode ter uma visão estreita virada para satisfazer apenas as "necessidades da economia" tal como por vezes a vemos, porque é grande o risco de muitas profissões ficarem rapidamente obsoletas e não corresponderem às "necessidades" da sociedade, do mercado e do Estado.

 Sem negligenciar uma determinada especialização e qualificação profissional, importa que se prepare antes de mais a juventude para a mudança, a qual implica abertura de espírito, curiosidade, autonomia, pensamento crítico e criativo. Em resumo tudo o que pressupõe cultura e competitividade.

 Também a "formação ao longo da vida" só é plenamente realizável se as pessoas tiverem ao menos um determinado nível de literacia (no sentido de "cultura geral") articulada com a faculdade de mudar. Essa literacia condiciona em larga medida a atitude e a capacidade dos agentes económicos no âmbito da "actualização de competência".

 Se assim for, limitar-se a avaliar a educação de um ponto de vista exclusivamente "prático" ou utilitarista (satisfazer as necessidades imediatas do mercado em nome de um "realismo" discutível) é uma aporia que pouco resolverá. Como alguém disse (Filipe Botton), não basta agir por reacção, é necessário fazê-lo por antecipação. O imediatismo não é bom conselheiro nem dará resposta aos problemas das empresas e menos ainda aos do país.

 Por outro lado, a cultura excede largamente o que a escola ensina. Na sociedade civil os meios audiovisuais, imprensa, TV, clubes desportivos, associações, partidos, internet etc. têm grande influência, infelizmente nem sempre com os melhores resultados. Por exemplo, certos canais de televisão confundem demasiadas vezes "popular" com rasca e "cultura" com obscuridade. É preciso desmistificar, sem demagogia, a trindade fatídica que, no espírito do cidadão médio, mistura cultura com obscuridade e com tédio, afastando-o em vez de o atrair, diminuindo-o em lugar de o fazer melhor.

 Em televisão há certamente cultura nos populares e pedagógicos programas do brasileiro Jô Soares, infinitamente superiores em humor e inteligência a programas portugueses congéneres, cujo conteúdo pode frequentemente ser classificado como "dissolvente" e anticultural, onde impera o snobismo, a mentalidade paroquial e as personagens patéticas tiradas de uma farsa tonta.

 Por seu turno os clubes desportivos poderiam aproveitar as suas "claques" para favorecer a civilidade e educação da juventude e não para promover tribos de desordeiros; enquanto que os partidos políticos ganhariam em dar às juventudes partidárias uma formação pluridisciplinar séria, em seminários de Verão, a fim de não favorecer a promoção de clientelas de oportunistas incultos sem sentido da causa pública.

 Com estas e outras melhorias, ajudar-se-ia mais seguramente a qualidade dos recursos humanos, a produtividade e a economia do que em descarregar sistematicamente as culpas todas sobre o ensino e a universidade onde finalmente não se trabalha tão mal como alguns dizem...

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