Acerca da Avaliação em CoViD-19

ACERCA DA AVALIAÇÃO NO CONTEXTO DAS AULAS ON-LINE E DA EaD  NO ENSINO SUPERIOR, EM PERÍODO DE PANDEMIA CoVID-19
v.1.5 - 2020.07.06

Um dos aspectos que mais nos preocupa nesta transição forçada para o Digital e para a Distância é, seguramente, como realizar a avaliação.

Não tenho soluções futuristas de alta tecnologia com detecção de padrões comportamentais recorrendo a "machine learning", de aumento da temperatura corporal recorrendo a sensores térmicos ou com reconhecimento facial de expressões que revelem o que se passa na cabeça de cada um.  Não obstante, há já algumas tecnologias ultra sofisticadas, algumas a roçar o maquiavélico, com identificação do estilo de digitação, reconhecimento facial avançado, etc..

Baseio-me antes em coisas conhecidas e delimito-me às mesmas para optimizar o conhecimento partilhado e partilhável: no Zoom como vídeoconferência interactiva/streaming passivo; e no MOODLE que é um excelente LMS, com várias potencialidades avaliativas, mesmo na sua versão mais simples, ao qual podemos adicionar uma outra aplicação complementar

Mas há aqui uma evidente armadilha para incautos: do mesmo modo que as aulas a distância e on-line não podem ser simples gravações vídeo, também a avaliação não pode ser uma simples informatização de um teste. A solução há-de ter de passar pela abordagem educativa ao processo, enriquecendo os ambientes de ensino e aprendizagem por via do digital e, ao fazê-lo, ganharmos em qualidade o presente desafio da CoViD-19, também pelo facto de muita dessa digitalização ser online e independente do local!

Naturalmente e antes de começar, um alerta para a problemática social do fosso digital: estas ideias presumem que os alunos estão todos em condições idênticas de acesso à tecnologia computacional (portátil com webcam e micro adequados) e de rede (de banda larga) com acesso à Internet. Nem sempre é, infelizmente, assim e essa é uma validação que há que fazer antes de se decidir uma qualquer solução baseada nestas tecnologias, para assegurar que ningém fica excluído da solução adoptada sem ter uma outra que lhe seja equivalente.

Ainda como alerta evidente, nem todos os colegas estão à vontade para interpretar as abordagens aqui exemplificadas, pelo que porventura as mesmas pedirão, previamente e em graus variáveis consoantes os casos, formação e apoio a todos os que decidirem adoptar estas possibilidades.

Dito isto, aqui vão os meus dois "two cents" sobre este assunto, reflxões e ideias que tenho partilhado com alguns colegas, com algumas componentes mais consolidadas que outras: valem o que valem enquanto propostas e, sobretudo, pretendem suscitar reflexão e não fornecer receitas! Algumas são fortes simplificações e arrancarão aos colegas da Educação, no mínimo, um sorriso - o que também é bom nesta fase de isolamento social!

1. Não será politicamente correcto mas é seguramente verdade: muitos casos há em que a avaliação/classificação dos alunos do Ensino Superior (ES) não segue o que de melhor se faz, baseando-se muito mais em tradição do que em conhecimento neste domínio, dando mais atenção à cultura vigente no domínio ou na escola que o ministram do que ao que se vai evoluindo em termos de conhecimento sobre avaliação do ensino superior.

2. A avaliação é provavelmente na maioria dos casos olhada pela maioria dos docentes do ES como um processo eminentemente classificativo (de graduação numa escala de referência) e não avaliativo quando deveria ser o contrário: priorizar a compreensão do processo e do papel dos seus intervenientes, procurando a melhoria.

3. A avaliação no Ensino Superior tem de ser pensada para cada domínio de conhecimento, tendo em conta as sua especificidades, a natureza e estratégias são muito variadas.

4. A avaliação deve ser um processo contínuo, frequente e não final, deve ser tão formativo quanto sumativo (isto é deve ajudar o aluno e professor a determinarem a situação integrada em que o primeiro se encontra relativamente ao esperado pelo segundo, como a indicar uma classificação relativamente a uma escala conhecida ) e deve deitar mão a diferentes instrumentos para atender à diversidade dos alunos.

5. Os alunos devem ser envolvidos na sua avaliação, quer do ponto de vista da auto-avaliação quer da avaliação entre pares (alunos a avaliar alunos sob supervisão do professor).

Ora bem, até aqui nada disto tem em boa verdade a ver com a distância a que estamos obrigados e às eventuais soluções on-line, mas lança as bases para um modelo educação digital on-line, tão enriquecedor do ensino local como do a distância, sendo que neste último caso, por ser obrigatório, é mais crítico.

O que me parece que precisa de ser muito bem esclarecido é o facto de que aulas on-line a distância não poderem ser apenas aulas dadas em vídeo-conferência, muito menos serão gravações vídeo de aulas dadas localmente com a presença física de professor e alunos e ainda menos vídeos pré-gravados pelo professor em sua casa para distribuição posterior - embora todas e cada uma das anteriores possam ser elementos da solução a adoptar.

6. As aulas a distância devem resultar de uma solução elegante e integrada de momentos síncronos (vídeoconferência interactiva) e  assíncronos, de recursos e actividades (plataforma de ensino e aprendizagem), recorrendo a exposição, resolução de problemas, questões, apresentações pelos alunos,... compondo-se de recursos vídeo em tempo real, outros em diferido, espaços coleborativos e de debate, artigos e outros documentos de apoio e referência com apresentações (Powerpoint, Keynote, Prezi etc.) ou capítulos de livros de texto ou manuais, links para sites com tarefas concretas, simulações, animações e visualizações, problemas que permitam auto-correcção, etc. tudo montado e explicitado previamente para ao aluno saber com que é que pode contar e como é que deve corresponder.

7. Devem aproveitar sempre que possível e adequado soluções flexíveis e enriquecedoras de trabalho educativo, como o sejam o Flipped Learning, Problem-based Learning, Peer Assesment, Rubricas, etc..

8. Os professores devem reflectir sobre a sua cultura e experiência de aulas (caracterizadas pela presença física num local) e procurar encontrar soluções com presença digital a distância on-line, mas fazendo o esforço para não serem uma mera informatização directa, mas antes investindo na procura de abordagens diferentes com o mesmo objectivo, recorrendo a difrentes estratégias, designadamente as suportadas por ferramentas digitais disponíveis (MOODLE e, ou, outras):

- perguntas para controlar a aquisição em sala de aula -> feedback;

- questões no final do tópico/aula -> quizz;

- testes formativos -> quizz;

- trabalhos de grupo ou individuais -> assignment

e ainda, recorrendo a outras tecnologias complementares ao MOODLE:

- presença on-line e participação em aula a distância, à semelhança da presença física e participação local na sala de aula;

- apresentação pelo(s) aluno(s) em vídeo-conferência com PPT em modo "pecha kucha" (20 slides a 20" cada um com mudança automática e sempre resultando em 6' 40'" cada apresentação);

- dúvidas - síncronas, na aula com resposta na sessão de modo interactivo; assíncrona, em fórum com classificação da resposta se for dada por colega que sabe;

- trabalhos finais - portefólios reflexivos digitais com eventual apresentação por vídeoconferência;

- tarefas em grupo - recorrendo a Google Apps, durante o período de aulas em breakout rooms, ou em tempo não lectivo;

- orais: questionamento directo, público (na sala onde todos estão) ou à porta fechada (numa "breakout room", uma "sala ao lado" onde estão apenas dois docentes e o aluno).

Nota: sendo as orais uma das estratégias menos vulneráveis à trapaça, estas podem/ddevem ser um elemento obrigatório, a ser concretizado por vídeo-conferência zoom, eventualmente pedindo a colaboração de colegas docentes do departamento para o caso do número de alunos assim o exigir.

9. Teste on-line, a valer menos do que valeria se fosse feito em presença física por causa da insegurança de resultados. Algumas medidas mitigadoras (que não conseguem ser correctoras):

- acordo ético com os alunos

- punição severa de falcatruas com processo disciplinar e ... (reprovação? impedimento de frequência no ano seguinte? expulsão?)

- tempo curto de exame, 10' a 15' para não dar tempo para grande intercomunicação

- potencialidades dos quizz moodle: gerados dinamicamente (isto é, BD de 50 questões, 20 por aluno, aleatórias, desordenadas), diferentes tipos de questões (escolha múltipla, simultânea, resposta curta, ensaio, cálculo,... E temporizado. Eventualmente com muitas questões corrigidas automaticamente (para compensar todo o novo esforço aplicado nestas novas soluções).

Não que me satisfaça, mas numa abordagem mais próxima do exame final, por enquanto apenas da minha imaginação, exercitando as possibilidades da tecnologia existente e disponívels, partilho uma proposta de modelo de teste on-line e a distância, ainda a necessitar de ser validada:

- a exemplo do que se faz na sala de teste física, em que os alunos estão em circunstâncias especiais - intervalados, com testes diferentes - a configuração de teste a distância seria algo como (a validar):

. computador com áudio e vídeo, a distância de 3m (tem de permitir ler as perguntas no ecrã, se necessário levanta-se e vai ver?)

. sala iluminada, luz frontal

. sala silenciosa

. o enquadramento assegura que se tem visibilidade de 3m para cada lado do aluno (tipicamente, mesa da sala de jantar)

. o aluno senta~se apenas com caneta de feltro preta. Folha de respostas é colocada à frente mais perto do computador e da webcam

. os alunos que aos 5' antes da hora não apresentem estas condições são remetidos para uma sala paralela e só poderão entrar na "sala digital de exame" quando assegurarem essas características

. antes de começar o exame o docente informa que a sessão está a ser gravada

. à hora combinada o aluno levanta-se, chama a página web MOODLE e clica no ecrã para receber a quizz moodle (que só então é disponibilizada); durante o resto do exame o aluno apenas vê o teste

. o aluno responde estando sempre ligado em sala zoom com máximo de 45 alunos (que o zoom permite mostrar simultaneamente no mesmo ecrã e gravar)

. se a ligação audio/video falhar, terão de repetir o teste

. o aluno responde em folha de papel, previamente distribuída em PDF (implica impressora), com grelha de resposta e miras óptica (se se pretender autocorrecção por software especializado); ou então numa simples folha de papel branca.

. no final faz o scan da mesma e envia pelo telemóvel (implica smartphone) - com algum engenho consegue-se depois submeter essa folha de respostas a um programa de leitura óptica.

10. Considerações finais

- É uma mudança de paradigma e não uma "informatização do ensino" aquilo de que estamos a falar. Consequentemente temos todos de nos reinventar, tanto os professores, como os alunos, como as escolas

- "Dar" e "ter" aulas on-line e a distância não é somente uma replicação para o digital do que se fazia anteriormente: implica outra forma de ver as coisas, adaptação dos materiais e das estratégias de ensino e uma necessária mudança de práticas.

- Algumas destas mudanças, em boa verdade, aproximam-se muitas vezes daquilo que são recomendações para melhorar o ensino e aprendizagem no ensino superior, aproveitando as potencialidades do digital e do on-line, mesmo sem ter de ser a distância mas localmente em cada escola: aprendizagem mais centrada no aluno, flexível, em flipped learning, baseada em problemas ou casos, etc..

- A Avaliação tem de ser repensada, ser de natureza contínua (mesmo!), multi-facetada e eventualmente com contributo menor dos testes e de graduação menos fina... (Muito bom, Bom, Suficiente, Insuficiente?)

- Considerar abordagem radical: notas de aprovação atribuídas de 10 a 15 - alunos que aspiram a nota maior, requerem melhoria em oral on-line ou mesmo em presença física, caso se determine que a fidelidade destas modalidades, devido às várias condicionantes, se venha a revelar baixa...

Nenhuma solução é universal e infalível. Mas este momento particularmente difícil qie se coloca à academia é também, passe o lugar comum, uma verdadeira  oportunidade para se fazer a difrença! Se conseguirmos nesta nova abordagem enriquecer as nossas aulas através do digital, flexibilizando a sua disponibilização on-line e a distância e proporcionando múltiplos elementos de avaliação, então a sua triangulação ponderada dessa avaliação será mais justa porque permitirá uma melhor representação do que cada aluno sabe , dando ainda oportunidade, se necessário for, a estratégias mais finas de avaliação e classificação caso a caso.


Não sei se vos ajudei, metaforicamente lançando uma bóia que em vez de vos servir de apoio... vos acertou em cheio... :-)

Espero que pelo menos tenha suscitado reflexão e dado ideias... Comentários bem-vindos.

-- joão correia de freitas
         jcf@fct.unl.pt

Last modified: Monday, 6 July 2020, 1:13 AM